E, este mês, na Revista MeuSUL...
Tema antigo
Ah, estou cheia de temas que jamais abordarei. Vivo deles como que atada a coisa feita mais que recordação – vulto, talvez. É preciso que fiquem por seu tempo justo despertas, caladas. Plangendo. Até que um ato falho, um objeto do cotidiano, um gesto, o voo rasante de uma estrela as despertem. E a toalete fazem em seu casulo de madrepérola. Ei-las revoltas, olhar de criança, atônitas, sorrindo olhares de Vem, estou aqui! E abrem os braços.
Esta minha mania desmaneirada de dar contorno às insuficiências me consome. Como me consome o sentido de urgência, de agora. Esse sim é um tema antigo. Só faço o que tenho vontade. Um agora sublimado pelo sentido de urgência. Mas onde se fez raiz essa planta brava?
Gostava de andar descalça quando menina, pelo mato. As trilhas tinham curvas exatas, um rastro de chão batido, mato pisado.
Era fim de tarde, eu lembro. Havia sol. E na fantasia era pirata, a espada em punho era um galho seco. O mato ia espantando para os lados; havia amoras doces.
Caminhava distraída, eu e Duda, minha vizinha. Andávamos por lá com certa frequência, ora colhendo amoras, ora brincando, ora nos fazendo invisíveis. Mas eis que enveredando por uma trilha até então desconexa, certa alegria me toma, desconhecida, inominável, quase que felicidade – e não precisava ser tanto! O muro era alto e totalmente recoberto pelos baraços de uma parreira de chuchu. “Que bonito”, não contendo a voz. “Sempre pego chuchu pra colocar no feijão”, disse Duda. Minha amiga de infância, que gostava de guardar na geladeira o chiclete mascado durante o dia e dias e semanas com ares de novo, abrindo e fechando a boca sem controle de ato, gostava mesmo era de comer chuchus no feijão, “É que fica com gosto”.
Ir até a descoberta se fez imperativo. A ideia transformara os baraços em cipó, levavam a um reino mágico. Eu era toda ação. Dona Matilde - dona do muro, dos chuchus nele enleados e dos olhos mais ameaçadores que já vi - senti abrindo a porta que dava para o quintal, os pés rápidos, uma varinha de marmelo na mão “Sai daí, menina!” Quanto medo... Mas eram chuchus de abandono, portanto poderiam ser meus. “Vamos lá, Duda!” Mas já era quase escuro e minha mãe chamava. Pegar aqueles chuchus era tudo o que eu mais queria.
E há noites em que Morfeu tece sonhos diletos. Mas sonhar com chuchus? E devanear chuchus? Era demais. O que me perseguia? Não sei.
A manhã do dia seguinte, ainda o mato molhado – tinha orvalho – fui ao encalço daqueles que seriam meu deleite. E não os tirava dos baraços com delicadeza. Não. Era so-fre-ga-men-te puxando e retorcendo e agarrando com vontade. Com vontade. Talvez a vontade seja assim, sôfrega, de prévio devaneio.
O feijão de minha mãe, francamente, não teve outro gosto. Bastou-me ver e até provar alguns pedaços do pseudofurto, que tinha gosto de nada. Seja talvez a perseguição audaz pelo desejo consumado escorrendo do peito e travando a boca que me faça ter gosto pelo inaudível e por certas coisas – aparentemente – insípidas.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
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