Sim, eu sou!
O tempo tem sido aquela constante em que a consquista é diária, sempre e cada vez mais. Compreendo fundo o significado de "Orar e vigiar", agracer e agir com toda aquela força tão sufocada por tanto tempo. Afinal, é tempo de retomada de poder.
É um tempo de grandes mudanças as quais me coloco à disposição como agente e paciente da ação. Força de dentro, não de fora. Sob o signo de minha deusa protetora, Lilith.
E tem sido único e, por isso mesmo, difícil - mas não árduo -, fácil - mas não fraco -, leve e por isso um EU presente o tempo todo no aqui e no agora, sem flutuações.
Todo um entorno está mudando por conta dessa força. O que/quem é realmente importante? Tudo está sendo colocado à prova e, à medida que passam os dias, é possível avaliar o movimento do que continuará sendo e o que não será mais. Para tudo um prazo. Apenas assim, sei, haverá a retomada.
Como sempre, Justo e Perfeito.
E meus textos? Sim, tenho-os feito. E publicado também na Revista MeuSul, o que me traz uma felicidade imensa. Seguem três deles.
Paz profunda,
Chaie Berndt
Sobre Isa, uma certa formiga e açúcares (Abril 2011)
Da Colina Sul, pode-se avistar todo o vale até os olhos tocarem longe, deixando-se perder nos limites de azul da cidade. Vastas são as ruas, as alamedas, as esquinas, as quebradas, as picadas, as trilhas e os pés que não negam a travessia. “Todo caminho leva a toda parte”, disse o poeta português. Isa ouviu certa vez e ficou pensando, pensando, pensando... Isa gostava de pensar em tudo porque sentia que sentia demais. Isa sentipensava tanto que sua mãe a chamava de Isa Cabecinha-de-Vento.
Isa era um pouco vento, um punhado terra, um pouco de sol, um pouco chuva: Isa era um pouquinho de tudo – foi o que ela aprendeu com a Formiga Torrão-de-Açúcar desde que a conheceu no jardim, no final do último verão. Era noite quase e, deitada na grama, via o dia ceder seu brilho à noite. Torrão-de-açúcar sabia escutar as estrelas; Cabecinha-de-Vento sabia admirá-las, o que, no fim, é a mesma coisa.
Nos fundos da casa de Isa passa um rio. Ele é manso, mas dizem que pode ficar uma fera – água ganha força com a própria água -, disse com ares de mistério Formiga Torrão-de-Açúcar. Há várias casas margeando o sinuoso rio com seus jardins e quintais. Jardins e quintais são tão importantes quanto uma casa, dizia Torrão-de-Açúcar, afinal em que outro lugar a gente pode ver os seres encantados tão de perto?
Isa gosta do outono na Colina Sul, às margens do rio ou de qualquer outro ponto da cidade, afinal é tempo de goiabas. E de goiabada. O cheio invadindo a casa, atravessando as pontes chega longe, tomando conta – sutilmente – de espaços de lembrança dentro das gentes. Dona Mafalda, sua mãe, faz a melhor goiabada do mundo! Tem cravo, tem canela e o segredo das fadas como tempero – sem que ela saiba –. O açúcar que vem do engenho de seu Nicolau adoça o doce. Formiga Torrão-de-Açúcar fica só espiando dona Mafalda para, escondida, lambuzar as patinhas na goiabada, que fica na colher de pau enquanto Isa lambe a panela. O doce atrai, cada um a seu modo. É deliciando o doce que a conversa dá rumo às coisas.
- Formiga Torrão-de-Açúcar, por que o açúcar que vem do engenho do seu Nicolau é cor de terra?
- Da cana foi tirado o sumo, que virou melado e açúcar. Foi o fogo quem fez; dias e dias transformando. O açúcar é a alma, sua cor é cor de terra.
Isa sentipensava. “O açúcar escuro e áspero tem alma sim porque é puro, a mamãe sempre diz. E o açúcar branquinho que vem de longe, branquinho...”
- Então o açúcar branco da quitanda do seu Fabrício é desalmado?
- Não sei, Isa. Mas fiquei sabendo no jardim que pouquíssimas formigas entraram no grande engenho de ferro onde não há o rio cantando enquanto o melado vira açúcar, muito menos a mão do homem para acolhê-lo enquanto nasce. Nele há grades e também quem o faça ser branco. Lá tudo é força que vem de fora, não de dentro.
- As pessoas confundem tudo! - disse Isa enquanto sentia, sentia e dizia como que desvendando um segredo... - Deve ser por isso que ele mela quando mamãe não usa o açúcar branco. Aí ele fica lá, quietinho no escuro do armário e começa a ficar cor de tempestade. Acho que o açúcar cor de neve quer ser cor de terra de novo, mas pobrezinho não consegue!
- No fundo a gente sempre quer voltar. O açúcar cor de neve nem sabe o que é ser cor de terra mais. E mesmo que sentisse o cheio do melado trazido pelo vento sentiria uma saudade que não saberia explicar porque não pôde escolher ser como está. O caminho de volta seria tão outro e difícil quando o de ida. A força não veio de dentro dele. Com gente é diferente, tem força e das grandes que de dentro. O importante é não se perder do caminho da estrela.
- Foram elas, as estrelas, que te disseram isso, formiguinha?
Torrão-de-Açúcar sorri para Isa, como a dizer “sim”. Isa deixa de lado a panela e olha no fundo dos olhos de Torrão-de-Açúcar:
- Você é Torrão de Açúcar com alma ou sem alma?
Um silêncio vai longe por toda a cidade.
- Não sei, Cabecinha de Vento... mas acho que desalmado eu não sou não! Olha só meus olhos! E olha as minhas patinhas, então... vê como elas são bonitas! Estou aqui porque estou com você descobrindo o que é ter vida, não existência apenas. Alguém sem alma será que conseguiria escutar as estrelas?
- É verdade, formiguinha!
E sorriem uma para a outra como que acenando para o universo inteiro.
Quando chegar o outono (Março/2011)
Andar pelas ruas nesta época do ano tem seu encanto. O tempo traz aquele afrouxamento de luz dourada que vai tingindo as cores do mundo. Aos poucos, sem que a espera pelo novo prenuncie em nosso coração a mudança, ali está o outono. E nos encara.
Finda a estação do calor e seu estado de luz plena, dias longos - um relaxamento que pede leveza e afrouxamento. O outono, diferente do verão, prepara-nos. É um tempo de silêncio. As árvores se desnudam; é por agora que medram, nos lotes baldios, os espinheiros e suas flores brancas.
Espinheiros, desde muito menina, intrigam-me: árvore dual nesta época, como que instigando-nos a aprender a olhar, não ver. Deixam nítidos os contrários - flor e espinho - como representação de algo maior, mas que tem o mesmo endereçamento.
É nesta época do ano que o mundo parece ser perfeito, quando não há nada de mais nem de menos; a leveza irrompendo o caos, negando o asfalto, levando-nos a percepção de que somos além dos condicionamentos impostos por nós. Temos a oportunidade de, em sintonia com a natureza, percebermo-nos parte do universo.
É preciso educar os olhos para vê-lo assim. O mundo circundante é o mundo particular de cada olhar, definido pelas experiências, pelo modo como é saboreado. Nisso incluem-se as oportunidades a que nos permitimos sujeitar ou não. Também nossos sonhos, nossos desejos fazem parte da dança do cosmos à medida que os projetamos na realidade. Deles, é preciso cuidar e vigiar com carinho. Com o tempo, vamos lapidando-os; outras vezes os lançamos ao longo do caminho (porque a gente percebeu que aquele sonho não tem mais um coração, aí “tomamos outra vereda e pronto”, como disse Quixote.)
Há coisas que acontecem em nossa vida e, sem saber por que, desencadeiam mudanças. Talvez seja esta a única coisa com a qual podemos contar: a mudança. Princípio que regula a vida.
Portanto, o outono é momento de aceitar o vento, deixar as folhas caírem na terra e recolher-se. É tempo de adubar. Com as folhas vai o que o tempo nacarou, germinou, fez flores e frutos na alma. Deixar as folhas caírem é aceitar o carinho da Grande Mãe em metamorfosear a escuridão dos frutos que não vingaram e os que, amargos – por ação nossa, sempre nossa – não foram afáveis.
O outono convida-nos a romper com a falsa harmonia, com o que muitas vezes carregamos há tempos sem ter um porquê, a lançar por terra, como as árvores que amarelecem as folhas para dar lugar ao novo. E a florir, como os espinheiros, conscientes enquanto soma do que pode machucar e o que alimenta os olhos de beleza.
A natureza é sabia. Tudo ao seu tempo. Sem pressa para a florada, nem receio pela folha do ramo caída, pois como disse Alberto Caeiro, poeta heterônimo de Fernando Pessoa, “o que for, quando for, é que será o que é."
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Aproveite, é todo seu! ( Janeiro/Fevereiro/2011)
A vida oferece-nos, graciosa, o ano de 2011. Chegamos exatamente neste momento regidos pela sensação plena de que o Ano Novo trará a novidade inventada de que tudo será diferente, pois assim o queremos. E podemos. Como no poeminha de Mário Quintana, ela, a Esperança, cai do décimo segundo andar do Ano toda meninazinha, de olhos verdes, deliciando-se com o Novo.
E quanto ao Ano Velho? E há? Quintana é quem responde bendizendo quem criou o belo truque do calendário, “pois o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça”. Necessidade de sentirmos de modo mais palpável o controle de nosso rumo pela reinveção contínua da vida?
Talvez não nos demos conta, mas o que entendemos como passado nunca é ponto final, é um contínuo fluir de forças que carrega consigo as experiências vividas e sonhadas. O que me fascina na dança do cosmos é justamente isso, o modo como agregamos o olhar do outro, os sabores, as paisagens vistas, aquele perfume, um jeito diverso de rir, de contar com o inesperado. Tudo. Porque – e agora com Drummond – “de tudo fica um pouco”.
Levamos. Carregamos trocas, perspectivas outras. Levamos colheitas, ceias postas à mesa (sem se dar conta de que foi posta...). Levamos a luz das flores que vingaram em fruta sumarenta; outras, a luz da semente que não germinou e leva consigo a promessa das flores. A tentativa. Levamos. Não a idade definindo a maturidade, mas as experiências que se tem.
I ching, o Livro das mutações, diz que ”não é o que acontece que é importante, é a resposta ao acontecimento que é tudo”. Mais significante do que a máxima contemporânea vendida insistentemente pela mídia – e reproduzida na fala irrefletida da maioria das pessoas – é que é preciso ser feliz, a todo custo. Com um clichê às avessas, penso que não é importante ser feliz, mas sim tornar a vida preciosa. Como? Cada um de nós, nas andanças que a vida oferece, descobre, inventa e faz da oportunidade um motivo para ampliar sua percepção de mundo e, consequentemente, o modo como interagimos com ele.
E não falo apenas das experiências afáveis, mas – e principalmente – das situações em que a dor é uma constante, naqueles momentos em que não é fácil enxergar uma saída e que somente o distanciamento e o tempo nos possibilitam compreender sua importância. Portanto, estar aqui é uma dádiva. Experimentar a aventura que é a vida, sob todos os seus aspectos chega, por vezes, ser fabuloso. Porque também podemos inventá-la e, por isso, criá-la.
Quais são os seus sonhos, o que seu coração deseja? Lembre-se: mais importante do que ser feliz, é tornar a vida preciosa. Aproveite! Este ano, este dia, este momento é todo seu!
sexta-feira, 22 de abril de 2011
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