sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Pois então, deixa mostrar uma crônica que publiquei no site do UNIBAVe, Instituição em que trabalho há um bom tempo...

http://www.unibave.net/?op=conteudo_art&a=5272

Fotografia 3X4
Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Cartola, Caymmi, Candeia, Tom Jobim, Belchior – só para citar alguns. Provavelmente, o leitor lembre-se de “Águas de Março”, ou ainda um soneto do Poetinha; por minha vez, apaixonada pela obra do Chico, não poderia me furtar, deixo escapar um “Onde andará Nicanor?/ Tinha nó de marinheiro/ Quando amarrava um amor/ Mas há recantos guardados/ Nos sete mares rasgados/ Sete pecados tão bons”. E se do seu lado alguém cantarolasse “ Eu sou apenas um rapaz latino-americano/ sem dinheiro no bolso...” ?

A propósito dos versos que Belchior, durante uma semana, o público de certa(?) emissora ficou apreensivo para saber o paradeiro do cantor que, segundo fontes, havia “sumido” do mapa, deixado a ver navios a ex-esposa sem receber a pensão alimentícia dos filhos, dois carros abandonados, entre outras pendências. Comunidades no Orkut foram criadas, no Twitter não se falava noutra coisa. Aí me faço uma pergunta e estendo-a: quem é Belchior?

Virou clichê dizer que a mídia manipula, exerce um poder de persuasão que faz com que o receptor – eu, você – seja mero títere em mãos cujas intencionalidades vão muito além de entreter e bem aquém de formar senso crítico, quem dera poético. Que identidade temos nós diante de tanto descaso e alienação?

Abrir parêntese Ouviu falar, por acaso, que na última terça-feira a Alerj – Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou o projeto de lei que transforma o funk em movimento cultural? Não? Gostei da iniciativa, isso se vista por um viés: que música farão parte do movimento, aquelas nascidas na favela, que falam sobre a realidade dura e sofrida do povo que lá habita? Ou as de conotação explicitamente sexual? Quem promoverá a cultura, Tati Quebra Barraco? fechar parêntese.
Carecemos de música de qualidade, de literatura que mereça ser chamada de literatura, de uma vida que tenha sentido, orientada por princípios e valores. E existe tudo isso? Sim, existe. Mas cadê? Pense, caro leitor. Sensibilidade e gosto a gente também educa.

Queremos Belchior de volta sim! Não na revista eletrônica de domingo para responder à perguntas embaraçosas, não: queremos ser tocados pela beleza, por composições que tragam consigo um sentido diverso daquele que planta em nós o desencanto.

Em tempos em que velório de pop star é circus, autobiografias prematuras de celebridades instantâneas são vendidas aos potes, ou ainda que lei é aprovada transformando o funk em movimento cultural, custa acreditar numa luz no fim do túnel.

E falta dizer...
Já ouviu “Fotografia 3x4” do Belchior? Ouça, é linda. Os versos que me tocam: “ A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia/ E pela dor eu descobri o poder da alegria/ E a certeza de que tenho coisas novas, coisas novas pra dizer”.

E ainda...
Segundo alguns defensores do movimento cultural, tem o funk do bem e o do mal. Resta agora separar o joio do trigo. Será que “Cadê Xoxó?” faz parte do segundo grupo? O paradeiro de xoxó, caro leitor, esse sim é melhor deixar perdido.

Chaiene Berndt Orben –
Professora de Língua Portuguesa e Literatura da Escola Barriga Verde.

1 comentários:

Juan Carlo Moravagine disse...

Eu sempre fiquei curioso em saber por onde andava o Belchior, pois sempre admirei ele não só no sentido musical mas também no âmbito de suas escolhas pessoais. Pois o mesmo em um tempo passado abandonou a medicina e saiu pelo brasil a fora em busca de se si mesmo, onde conseqüentemente a música fez parte.
Mas nunca me passou pela cabeça correr atrás de saber aonde ele se encontrava pois sabia que para ele a ausência era necessária para ele continuar a ser quem ele era. É triste saber que a heróica luta de determinados artistas para se verem longe do sucesso, possam ser anuladas de forma tão covarde por determinados meios de comunicação.
Belchior é uma espécie de Bob Dylan brasileiro