quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Meu coração a(é)teu

Estou pra Bethânia, essa lua plena de luz, um cabernet  generoso: um agitamento que não defino, mas advinho.



"Onde há muita água, tudo é feliz" Guimarães rosa

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sunhine on my sholdrs...

Há agradinhos que me permito e que me encantam. Como ir ao sebo e garimpar, garimpar, garimpar. Sebos, antiquários e brechós me fascinam pela fatia generosa de inesperado. O que há nas prateleiras é sempre uma incógnita. De óbvio, apenas a ordem alfabética e as áreas de interesse com que são organizados os livros, os LPs, CDs e filmes. É um bálsamo nesse mundo de previsibilidades, tudo tão cronometrado, agendado, carimbado e coisa e tal. Um universo inteirinho ávido por um descobridor ou, quando mais, um invasor. Suponho que quem descobriu a tumba de Tutancâmon deve ter sentido o mesmo que sinto quando tenho nas mãos um livro raro, desses preciosos de edição esgotada, ou aquele livrinho que foi referência na infância ou adolescência e que a memória havia amarelecido e, como num passe de mágica, colore o meu dia a olhos vistos. São obras marcadas pelos detalhes dos antigos donos, que ficaram relegadas ao esquecimento e ao abandono. Há, às vezes, um papelzinho marcando páginas, uma flor seca, uma anotação espaça ou uma dedicatória generosa. E aí chego eu.
E o que garimpei na última sexta-feira? Uma edição italiana - e esgotada – de um estudo sobre erotismo à luz da psicanálise, de Francesco Alberoni; outro livro interessantíssimo: “Pornografia e sexualidade no Brasil”, de Carlos Roberto, que é uma dissertação de mestrado em sociologia (UFRGS) sobre a organização da sexualidade à luz de Freud, Reich e Marcuse em terras tupiniquins. E sobre música? Um CD do Yanni - “In my time” (lindo!!! – com o Yanni de bigodão e tudo rss), a trilha sonora do Vangelis – “1492 - The conquest of paradise” e alguns LPs de tirar o meu fôlego! Quais? Primeiro, alguns LPs do Roberto Carlos (para minha mãe que é fã rss), outros cinco da Maria Bethânia, incluindo o álbum “Álibi” em que ela interpreta canções como “Cálice, “Explode coração” e “Negue” – todos os cinco sem comentário, amo!; o álbum “Poems, prayers and promesses” do Jhon Denver ( com “Sunshine on my sholders”!!!!!!), o álbum “De volta ao começo” do Gonzaguinha, o álbum “Este mundo” do Gipsy Kings (para agradar a menina, obviamente....), e - rsss isso que fico criticando o Restart ... – o álbum “Polegar” do Polegar com as minhas músicas de pré-adolescente rsss. E, acreditem, uma edição especial comemorativa que foi lançada quando Elvis morreu: “Our memories of Elvis”, contendo suas canções inesquecíveis selecionadas por seu pai e Colonel. Tem coisa melhor? 
Saí do sebo da Catedral e fui saltitante para a Esplanada comendo bombons de licor de anis e ouvindo Yanii.  E agradecendo por aquela tarde maravilhosa! 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Estrelas Oswaldo Montenegro

Pela marca que nos deixa
A ausência de som que emana das estrelas
Pela falta que nos faz
A nossa própria luz a nos orientar
Doido corpo que se move
É a solidão nos bares que a gente frequenta
Pela mágica do dia
Que independeria da gente pensar
Não me fale do seu medo
Eu conheço inteira sua fantasia
E é como se fosse pouca
E a tua alegria não fosse bastar
Quando eu não estiver por perto
Canta aquela música que a gente ria
É tudo que eu cantaria
E quando eu for embora, você cantará

...

Não esquece que tenho tanto medo quanto você. Só não é maior do que o que eu sinto. O tempo urge, e estou aqui. Esperando. Não demora!
:)
Chaie

domingo, 26 de junho de 2011

Este mês, na Revista MeuSUL

Estive pensando sobre meu processo de criação, o modo como conduzo a escrita. É nítida a necessidade de escrever sobre o que sinto no momento. E tudo visceral e imperativo. Como sempre. O mais ou menos me paraliza. Ou é ou não é. :)
Portanto, este mês, publico na MeuSUL um artigo falando de um bem precioso, que não é tão importante quando pai, mãe, irmãos e filhos, embora permeie tais relações: a amizade.
Aos amigos de hoje e de sempre, e aos que - sinto - virão a ser.
Aproveito, também, para fazer a divulgação da revista, que tem ampla repercursão aqui no Sul catarinse. Aos interessados, vale a pena investir no marketing de sua empresa através da publicação.
Forte abraço, Paz Profunda,
Chaiene Berndt Orben





Ab imo pectore*



Chaiene Berndt Orben

Ser amigo é movimento contrário a ter amigo. Em tempos como estes, em que a descartabilidade de tudo permeia as relações e os vínculos, o outro passa a ser objeto que pode – ou não – ser refutado se esse não mais lhe convém.

Penso, com frequência, na solitária raposa de O Pequeno Príncipe que, ardilosamente, diz que nos tornamos eternamente responsáveis pelo que cativamos. Tornar cativo é tornar preso, ficando sob o julgo do outro que, a qualquer momento, pode – ou não – tornar-nos libertos. Manter cativo dá a raposa espaço para as suas vaidades e tramas, já que o Principezinho (sim, no diminutivo) será responsável por qualquer coisa que aconteça dentro do cativeiro.

Ser amigo é ir além. É, mais que tudo, permitir-se a sinceridade doída de falar e ouvir o que é necessário; não apontar caminhos, antes trazer à luz o que não ilumina na caminhada do outro. É estar, independentemente de tempo e espaço, energeticamente ligado ao outro não por demanda de apego, mas porque é tão bom saborear a descoberta, a troca e as lições que a vida tem a oferecer enquanto a relação amadurece.

O que é precioso sempre permanece, independentemente de quantos puxões de orelha sejam dados ou se ganhe, apesar de chorar ou rir com ou pelo amigo. Se for imperativo ir embora, bater a porta e nunca mais? Sim, acontece – e como! Mas atrás de tempo, tempo vem. E o que é amizade, permanece. Porque um amigo reconhece no outro a vontade de plenitude expressa na natural afabilidade ou na necessária aspereza da palavra.

São as mudanças as quais nos sujeitamos em nome da nossa evolução enquanto seres humanos em busca de si e do aperfeiçoamento das relações a qual, aí sim estamos sujeitos - nunca sujeitados -, que nos alavancam. Porque amizade também é escolha. É compromisso com um bem muito maior que aquele que queremos ao nosso próprio umbigo.

O tempo é tão breve. Por que não tornar infinito em profundidade e dimensão o que sentimos ser verdadeiro, ao invés de nos apegarmos ao que é efêmero? Em nome de quê, de quem? Somos as nossas escolhas e o reflexo delas e elas, por sua vez, o eco que emitimos ao universo.

Amigo a gente não conta nos dedos, sabe-os de cor. Sempre. Como a música na voz honesta de Milton Nascimento, a gente os guarda do lado esquerdo do peito, dentro do coração.



*Expressão latina que quer dizer “Do fundo do meu coração”.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

E, este mês, na Revista MeuSUL...



Tema antigo

Ah, estou cheia de temas que jamais abordarei. Vivo deles como que atada a coisa feita mais que recordação – vulto, talvez. É preciso que fiquem por seu tempo justo despertas, caladas. Plangendo. Até que um ato falho, um objeto do cotidiano, um gesto, o voo rasante de uma estrela as despertem. E a toalete fazem em seu casulo de madrepérola. Ei-las revoltas, olhar de criança, atônitas, sorrindo olhares de Vem, estou aqui! E abrem os braços.
Esta minha mania desmaneirada de dar contorno às insuficiências me consome. Como me consome o sentido de urgência, de agora. Esse sim é um tema antigo. Só faço o que tenho vontade. Um agora sublimado pelo sentido de urgência. Mas onde se fez raiz essa planta brava?

Gostava de andar descalça quando menina, pelo mato. As trilhas tinham curvas exatas, um rastro de chão batido, mato pisado.
Era fim de tarde, eu lembro. Havia sol. E na fantasia era pirata, a espada em punho era um galho seco. O mato ia espantando para os lados; havia amoras doces.
Caminhava distraída, eu e Duda, minha vizinha. Andávamos por lá com certa frequência, ora colhendo amoras, ora brincando, ora nos fazendo invisíveis. Mas eis que enveredando por uma trilha até então desconexa, certa alegria me toma, desconhecida, inominável, quase que felicidade – e não precisava ser tanto! O muro era alto e totalmente recoberto pelos baraços de uma parreira de chuchu. “Que bonito”, não contendo a voz. “Sempre pego chuchu pra colocar no feijão”, disse Duda. Minha amiga de infância, que gostava de guardar na geladeira o chiclete mascado durante o dia e dias e semanas com ares de novo, abrindo e fechando a boca sem controle de ato, gostava mesmo era de comer chuchus no feijão, “É que fica com gosto”.
Ir até a descoberta se fez imperativo. A ideia transformara os baraços em cipó, levavam a um reino mágico. Eu era toda ação. Dona Matilde - dona do muro, dos chuchus nele enleados e dos olhos mais ameaçadores que já vi - senti abrindo a porta que dava para o quintal, os pés rápidos, uma varinha de marmelo na mão “Sai daí, menina!” Quanto medo... Mas eram chuchus de abandono, portanto poderiam ser meus. “Vamos lá, Duda!” Mas já era quase escuro e minha mãe chamava. Pegar aqueles chuchus era tudo o que eu mais queria.
E há noites em que Morfeu tece sonhos diletos. Mas sonhar com chuchus? E devanear chuchus? Era demais. O que me perseguia? Não sei.
A manhã do dia seguinte, ainda o mato molhado – tinha orvalho – fui ao encalço daqueles que seriam meu deleite. E não os tirava dos baraços com delicadeza. Não. Era so-fre-ga-men-te puxando e retorcendo e agarrando com vontade. Com vontade. Talvez a vontade seja assim, sôfrega, de prévio devaneio.
O feijão de minha mãe, francamente, não teve outro gosto. Bastou-me ver e até provar alguns pedaços do pseudofurto, que tinha gosto de nada. Seja talvez a perseguição audaz pelo desejo consumado escorrendo do peito e travando a boca que me faça ter gosto pelo inaudível e por certas coisas – aparentemente – insípidas.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sim, eu sou!




O tempo tem sido aquela constante em que a consquista é diária, sempre e cada vez mais. Compreendo fundo o significado de "Orar e vigiar", agracer e agir com toda aquela força tão sufocada por tanto tempo. Afinal, é tempo de retomada de poder.
É um tempo de grandes mudanças as quais me coloco à disposição como agente e paciente da ação. Força de dentro, não de fora. Sob o signo de minha deusa protetora, Lilith.
E tem sido único e, por isso mesmo, difícil - mas não árduo -, fácil - mas não fraco -, leve e por isso um EU presente o tempo todo no aqui e no agora, sem flutuações.
Todo um entorno está mudando por conta dessa força. O que/quem é realmente importante? Tudo está sendo colocado à prova e, à medida que passam os dias, é possível avaliar o movimento do que continuará sendo e o que não será mais. Para tudo um prazo. Apenas assim, sei, haverá a retomada.
Como sempre, Justo e Perfeito.

E meus textos? Sim, tenho-os feito. E publicado também na Revista MeuSul, o que me traz uma felicidade imensa. Seguem três deles.
Paz profunda,
Chaie Berndt


Sobre Isa, uma certa formiga e açúcares (Abril 2011)

Da Colina Sul, pode-se avistar todo o vale até os olhos tocarem longe, deixando-se perder nos limites de azul da cidade. Vastas são as ruas, as alamedas, as esquinas, as quebradas, as picadas, as trilhas e os pés que não negam a travessia. “Todo caminho leva a toda parte”, disse o poeta português. Isa ouviu certa vez e ficou pensando, pensando, pensando... Isa gostava de pensar em tudo porque sentia que sentia demais. Isa sentipensava tanto que sua mãe a chamava de Isa Cabecinha-de-Vento.

Isa era um pouco vento, um punhado terra, um pouco de sol, um pouco chuva: Isa era um pouquinho de tudo – foi o que ela aprendeu com a Formiga Torrão-de-Açúcar desde que a conheceu no jardim, no final do último verão. Era noite quase e, deitada na grama, via o dia ceder seu brilho à noite. Torrão-de-açúcar sabia escutar as estrelas; Cabecinha-de-Vento sabia admirá-las, o que, no fim, é a mesma coisa.

Nos fundos da casa de Isa passa um rio. Ele é manso, mas dizem que pode ficar uma fera – água ganha força com a própria água -, disse com ares de mistério Formiga Torrão-de-Açúcar. Há várias casas margeando o sinuoso rio com seus jardins e quintais. Jardins e quintais são tão importantes quanto uma casa, dizia Torrão-de-Açúcar, afinal em que outro lugar a gente pode ver os seres encantados tão de perto?

Isa gosta do outono na Colina Sul, às margens do rio ou de qualquer outro ponto da cidade, afinal é tempo de goiabas. E de goiabada. O cheio invadindo a casa, atravessando as pontes chega longe, tomando conta – sutilmente – de espaços de lembrança dentro das gentes. Dona Mafalda, sua mãe, faz a melhor goiabada do mundo! Tem cravo, tem canela e o segredo das fadas como tempero – sem que ela saiba –. O açúcar que vem do engenho de seu Nicolau adoça o doce. Formiga Torrão-de-Açúcar fica só espiando dona Mafalda para, escondida, lambuzar as patinhas na goiabada, que fica na colher de pau enquanto Isa lambe a panela. O doce atrai, cada um a seu modo. É deliciando o doce que a conversa dá rumo às coisas.

- Formiga Torrão-de-Açúcar, por que o açúcar que vem do engenho do seu Nicolau é cor de terra?

- Da cana foi tirado o sumo, que virou melado e açúcar. Foi o fogo quem fez; dias e dias transformando. O açúcar é a alma, sua cor é cor de terra.

Isa sentipensava. “O açúcar escuro e áspero tem alma sim porque é puro, a mamãe sempre diz. E o açúcar branquinho que vem de longe, branquinho...”

- Então o açúcar branco da quitanda do seu Fabrício é desalmado?

- Não sei, Isa. Mas fiquei sabendo no jardim que pouquíssimas formigas entraram no grande engenho de ferro onde não há o rio cantando enquanto o melado vira açúcar, muito menos a mão do homem para acolhê-lo enquanto nasce. Nele há grades e também quem o faça ser branco. Lá tudo é força que vem de fora, não de dentro.

- As pessoas confundem tudo! - disse Isa enquanto sentia, sentia e dizia como que desvendando um segredo... - Deve ser por isso que ele mela quando mamãe não usa o açúcar branco. Aí ele fica lá, quietinho no escuro do armário e começa a ficar cor de tempestade. Acho que o açúcar cor de neve quer ser cor de terra de novo, mas pobrezinho não consegue!

- No fundo a gente sempre quer voltar. O açúcar cor de neve nem sabe o que é ser cor de terra mais. E mesmo que sentisse o cheio do melado trazido pelo vento sentiria uma saudade que não saberia explicar porque não pôde escolher ser como está. O caminho de volta seria tão outro e difícil quando o de ida. A força não veio de dentro dele. Com gente é diferente, tem força e das grandes que de dentro. O importante é não se perder do caminho da estrela.

- Foram elas, as estrelas, que te disseram isso, formiguinha?

Torrão-de-Açúcar sorri para Isa, como a dizer “sim”. Isa deixa de lado a panela e olha no fundo dos olhos de Torrão-de-Açúcar:

- Você é Torrão de Açúcar com alma ou sem alma?

Um silêncio vai longe por toda a cidade.

- Não sei, Cabecinha de Vento... mas acho que desalmado eu não sou não! Olha só meus olhos! E olha as minhas patinhas, então... vê como elas são bonitas! Estou aqui porque estou com você descobrindo o que é ter vida, não existência apenas. Alguém sem alma será que conseguiria escutar as estrelas?

- É verdade, formiguinha!

E sorriem uma para a outra como que acenando para o universo inteiro.



Quando chegar o outono (Março/2011)


Andar pelas ruas nesta época do ano tem seu encanto. O tempo traz aquele afrouxamento de luz dourada que vai tingindo as cores do mundo. Aos poucos, sem que a espera pelo novo prenuncie em nosso coração a mudança, ali está o outono. E nos encara.

Finda a estação do calor e seu estado de luz plena, dias longos - um relaxamento que pede leveza e afrouxamento. O outono, diferente do verão, prepara-nos. É um tempo de silêncio. As árvores se desnudam; é por agora que medram, nos lotes baldios, os espinheiros e suas flores brancas.
Espinheiros, desde muito menina, intrigam-me: árvore dual nesta época, como que instigando-nos a aprender a olhar, não ver. Deixam nítidos os contrários - flor e espinho - como representação de algo maior, mas que tem o mesmo endereçamento.

É nesta época do ano que o mundo parece ser perfeito, quando não há nada de mais nem de menos; a leveza irrompendo o caos, negando o asfalto, levando-nos a percepção de que somos além dos condicionamentos impostos por nós. Temos a oportunidade de, em sintonia com a natureza, percebermo-nos parte do universo.

É preciso educar os olhos para vê-lo assim. O mundo circundante é o mundo particular de cada olhar, definido pelas experiências, pelo modo como é saboreado. Nisso incluem-se as oportunidades a que nos permitimos sujeitar ou não. Também nossos sonhos, nossos desejos fazem parte da dança do cosmos à medida que os projetamos na realidade. Deles, é preciso cuidar e vigiar com carinho. Com o tempo, vamos lapidando-os; outras vezes os lançamos ao longo do caminho (porque a gente percebeu que aquele sonho não tem mais um coração, aí “tomamos outra vereda e pronto”, como disse Quixote.)

Há coisas que acontecem em nossa vida e, sem saber por que, desencadeiam mudanças. Talvez seja esta a única coisa com a qual podemos contar: a mudança. Princípio que regula a vida.

Portanto, o outono é momento de aceitar o vento, deixar as folhas caírem na terra e recolher-se. É tempo de adubar. Com as folhas vai o que o tempo nacarou, germinou, fez flores e frutos na alma. Deixar as folhas caírem é aceitar o carinho da Grande Mãe em metamorfosear a escuridão dos frutos que não vingaram e os que, amargos – por ação nossa, sempre nossa – não foram afáveis.

O outono convida-nos a romper com a falsa harmonia, com o que muitas vezes carregamos há tempos sem ter um porquê, a lançar por terra, como as árvores que amarelecem as folhas para dar lugar ao novo. E a florir, como os espinheiros, conscientes enquanto soma do que pode machucar e o que alimenta os olhos de beleza.
A natureza é sabia. Tudo ao seu tempo. Sem pressa para a florada, nem receio pela folha do ramo caída, pois como disse Alberto Caeiro, poeta heterônimo de Fernando Pessoa, “o que for, quando for, é que será o que é."

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Aproveite, é todo seu! ( Janeiro/Fevereiro/2011)



A vida oferece-nos, graciosa, o ano de 2011. Chegamos exatamente neste momento regidos pela sensação plena de que o Ano Novo trará a novidade inventada de que tudo será diferente, pois assim o queremos. E podemos. Como no poeminha de Mário Quintana, ela, a Esperança, cai do décimo segundo andar do Ano toda meninazinha, de olhos verdes, deliciando-se com o Novo.

E quanto ao Ano Velho? E há? Quintana é quem responde bendizendo quem criou o belo truque do calendário, “pois o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça”. Necessidade de sentirmos de modo mais palpável o controle de nosso rumo pela reinveção contínua da vida?

Talvez não nos demos conta, mas o que entendemos como passado nunca é ponto final, é um contínuo fluir de forças que carrega consigo as experiências vividas e sonhadas. O que me fascina na dança do cosmos é justamente isso, o modo como agregamos o olhar do outro, os sabores, as paisagens vistas, aquele perfume, um jeito diverso de rir, de contar com o inesperado. Tudo. Porque – e agora com Drummond – “de tudo fica um pouco”.

Levamos. Carregamos trocas, perspectivas outras. Levamos colheitas, ceias postas à mesa (sem se dar conta de que foi posta...). Levamos a luz das flores que vingaram em fruta sumarenta; outras, a luz da semente que não germinou e leva consigo a promessa das flores. A tentativa. Levamos. Não a idade definindo a maturidade, mas as experiências que se tem.

I ching, o Livro das mutações, diz que ”não é o que acontece que é importante, é a resposta ao acontecimento que é tudo”. Mais significante do que a máxima contemporânea vendida insistentemente pela mídia – e reproduzida na fala irrefletida da maioria das pessoas – é que é preciso ser feliz, a todo custo. Com um clichê às avessas, penso que não é importante ser feliz, mas sim tornar a vida preciosa. Como? Cada um de nós, nas andanças que a vida oferece, descobre, inventa e faz da oportunidade um motivo para ampliar sua percepção de mundo e, consequentemente, o modo como interagimos com ele.

E não falo apenas das experiências afáveis, mas – e principalmente – das situações em que a dor é uma constante, naqueles momentos em que não é fácil enxergar uma saída e que somente o distanciamento e o tempo nos possibilitam compreender sua importância. Portanto, estar aqui é uma dádiva. Experimentar a aventura que é a vida, sob todos os seus aspectos chega, por vezes, ser fabuloso. Porque também podemos inventá-la e, por isso, criá-la.

Quais são os seus sonhos, o que seu coração deseja? Lembre-se: mais importante do que ser feliz, é tornar a vida preciosa. Aproveite! Este ano, este dia, este momento é todo seu!

terça-feira, 8 de março de 2011

Casa amarela

Este foi o último ano veraneando no Rincão.
Desde que me entendo por gente, meus verões são lá. Tanta tanta tanta coisa boa vivi na praia!!!
Não será hoje que escreverei sobre meus verões memoráveis, mas sim das paredes de meu quarto na casa amarela!
Já disse que escrevo e desenho em paredes? Meu quarto tem flores azuis que eu pintei aos 15 anos. E tem poemas também, vários. Cada um registrando momentos especiais...


Tuas mãos

Quando tuas mãos saem,
amado, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.


...

Sei que estou repetitiva, inventando pretextos. Não sei explicar que força é esta que me impele sempre a retornar...

sábado, 5 de março de 2011

No domingo. Quando?

Faz uma sábado bonito. Há aquela réstia de sol entre as nuvens, um ar fresco de brisa matutina.
Sentada aqui na varanda, vendo essa extensão de morros e verdes, penso no fazer desses dias de descanso. Lanço no amanhã o mar, um afrouxamento de mato e rio, a relva cachoeiras curvas frio e luz da Serra Geral. Penso num lugar bonito com água - sob o zelo de Oxum Yemanjá. Um dia inteiro, só meu. Não uma manhã ou uma tarde ou uma noite sem começo meio fim. Um algo pleno. Só meu. Um eu comigo.
Aonde vou amanhã?
Da última vez que estive na Serra não lembro nem recordo. A paisagem era coisa outra e externa. Havia, sob a superfície das falas, das mãos e do azul dos meus olhos um mar muito mais abismo que a sua encosta. Sob esse infinito sem começo meio e fim, jaz um tesouro. E mesmo que a maré suba, e mesmo que a nau do oriente regresse do naufrágio, estará ela ali, intacta. Como uma pérola que antes foi coisa outra na sua casa de nácar.

Chaiene

quinta-feira, 3 de março de 2011

Tão bom estar, assim, tão comigo. Essa proximidade que me toca, sem endereçamentos para avessos e poéticas perdidas.
Cuido do jarmim com o primor de quem cuida de um jardim: rega, contempla suas belezas, a poda e o capinar do que não é promessa de vida colorida ou que adição.
Por isso, este ano é um sagrado. Não guardarei as flores de seda - as que uso nos cabelos - nas caixas. Por isso o cuidado comigo, permitir-me tempo com tempo, redescobrir o que me faz mais Chaiene.
:)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Só por hoje


Verão de 2003. Itapirubá. Final de semana, um sol lindo. O mar estava calmo. Das pedras, podia-se ver tão longe quando alcançavam meus pensamentos. Onde estavam? Mais perto de mim, dentro de mim. Foi lá minha iniciação em REIKI - nível I. Lembro até hoje o que senti, como me senti. O processo de desintoxicação.
A vida dá tantas voltas. Nelas, deparamo-nos com passados, pois o tempo é cíclico, não linear. Por que me esqueço disso às vezes. Por que me esqueço dO Caminho?
Tenho que me apegar em algo pra nao me sentir perecer por dentro. Quando rupturas acontecem - estas por vontade imposta não por um deus insano, mas pela consciência de que é necessário dizer adeus, definitivamente - algo se contorce por dentro.
Mas é preciso se reerguer, enxugar as lágrimas e recomeçar a cultivar o jardim. Afinal é primavera. E é tempo de mudanças.

SÓ POR HOJE

NÃO TE ZANGUES NEM CRITIQUES .

NÃO TE PREOCUPES.

SÊ GRATO PELAS MÚLTIPLAS BÊNÇÃOS QUE RECEBES.

FAZ HONESTAMENTE O TEU TRABALHO.

RESPEITA O TEU SEMELHANTE, E TUDO O QUE VIVE.



E ser FELIZ.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Claude Monet: "Cliffs near Dieppe" (1882) - Zurich, Kunsthaus



Faz noite. Ela está toda linda: uma brisa fria, réstia do vento que tomou manhã e tarde, uma lua que se prenuncia sob a segunda face da Grande Mãe. Não há ruído que se distingue fora o farfalhar das folhas das palmeiras, ou um cachorro ao longe. Estamos nós aqui, eu e o silêncio extensão de uma urgência que não defino, mas adivinho o endereço.
Olho para as estrelas. Como são lindas! “Somos poeira estelar”, dizia aquela personagem do romance símbolo de minha adolescência. “Não te perde do caminho da estrela” disse Nicolau, meu aluninho, em sonho, há uns 7 anos.
Sempre penso nisso, no significado de seu dedo riste, o olhar atento em minha direção e a boca pronunciando meu sentido de urgência mais voraz: medo de me perder do meu caminho.
Estou repleta de afeto e uma certeza de algo distante e próximo ao mesmo tempo.
Desejo amar e ser amada. De verdade. Sem platonismos, distâncias ou qualquer ponta de mentira e subterfúgios. Existe?
...
Descobri que minha miopia piorou. Ver o mundo a la Monet não está mais sendo possível. Passou de opção à necessidade a invenção de Spinoza.
Chaie Berndt

:)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Dia branco

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...

Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...

Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...

Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh...

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...

Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair

Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...

E nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor...

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

Comigo, comigo.


Fazia tempos que não ouvia Geraldo Azevedo na voz deElba Ramalho.
Lindo. :)

sábado, 29 de maio de 2010

Quando sinto ímpetos de fazer o que por força me nego - regador e águas ou mãos aspergir -, corro pro chuveiro, mas alma não molha. Secura imposta.
Careço um banho de mar.
...
Qualquer esforço pra dizer parece retórica inútil.
E vento leva?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
Trouxe nada além do que eu já não saiba.

...
Tenho ouvido pouca musica. Dirigir, principalmente, com o que admiro é atordoante. Me faz recordar onde não moram ideias nem pensamento. Intravenosa mesmo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Por mais que não me pareça estranho e por mais que de mim não seja desatado, ausentar-me das letras não é mais um fardo - e como já foi.
Estranho não é o desembaralhamento de ideias, a complexidade dos enredos. Tudo está muito simples; pouco está vago.
(Embora de algumas dúvidas esvaziada, de espaços amplos me sinto cheia.)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Não são os dedos, os braços cansados. Coisa outra. Não eusencia do que escrever e do como dizer.
Lançar-me no trabalho, ler aqui, ali. Tudo organizadinho - oh a custo chegar! Mas e aí?
Abolir Neruda, meu subjetivismo vindo à tona cada vez que me deixo mergulhar nas entranhas – colado nas vísceras – ?
Deveria ter explicado `o que a primavera faz com as cerejas`? Lembrar que de outonos desfolheço? Constatar meus (des)vaos?
Eu tenho senso. Mas ele às vezes é mais falta que ausência.
...
Chaie

quinta-feira, 25 de março de 2010

Há uma serenidade secreta e não volatilizada em calar e não esperar. Nada.
Aceitar, mas sem resignação o que a vida tem me oferecido e eu me proporcionado: um dia de cada vez.
Está chegando o Dia dos Meus Anos. É domingo. Não peço sol, nem chuva. Que seja como é.
Aos 29. :)
Chaie

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Hurt - Johnny Cash -

What have I become?
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end


Ouvia ontem à noite. Cristiana e eu na beira da praia, umas garrafas. O mar estava lindo, quente à tarde, as mãos murchas. Tinha estrelas e um crescente que dourou no poente às 2:00 e pouco da manhã. Tudo passa. Já estive mais longe de saber o que quero. Interessante é ter ciência das próprias vontades.

Chaie

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Lembra?


O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda

sábado, 16 de janeiro de 2010

Hoje é para você, Sara! :)



Já disse isso tantss vezes e, mesmo assim, volto a afirmar: obrigada, obrigada, obrigada, Deus, pela possibilidade de, nesta vida, ter os amigos ue tenho :)
E a Sara? A gente senta o chão, anda descalço, come bolachinha Araré rsss e é feliz, feliz da vida discutindo história, literatura, música, aquela formiguinha ali, a cor daquela borboleta, a luz do dia. E é tudo tão simples, tão fluir sem preocupação. Às vezes a gente inventa umas comidinhas, outras "ah, vamos ver um filme", mas aí começa a papear e rir de umas piadas sem graça.
Tenho tanta coisa a dizer, agradecer a você, Sara, que não sei por onde começo. De coração agradeço pela nossa amizade!
Sara, desejo a você e ao Deivid toda luz, paz, amor e harmonia; que esta nova fase da vida de vocês seja plena de bençãos!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Como diz aquela música mesmo? :)


Ontem vim para casa. No carro as malas, os livros, o chapéu de praia, os saltos e rasteiras. Já viu alguém levar salto alto para a praia? Salto agulha. Ok, ok. Gosto de sapatos, todos. Meu conto favorito era o dA Cinderela... minha analista diz que isso diz alguma coisa.
Mas na praia ando descalça mesmo, despojados andrajos e qualquer coisa que me amarre – principalmente os pés. Desfeitos nós. Água.
Tem algo tão bom quanto água? E fins de tarde? Juntar os dois! Andar assim, livres os pensamentos, sentir-se toda eu toda ao lado de – o vento, dando lugar à noite, a chuva, areia nos pés, música, o afeto estendo nos braços. Esse sentido que te faz soltar um sorriso assim, liso? Ando escutando estrelas, não é, Formiguinha Torrão-de-Açúcar?
Tem me urgido divisores de águas, o que faz com que haja um antes e um depois. Mas já viu um antes continuar sendo um constante agora?
O reino das águas. A sede. O fluxo. O que desperta. – sei poetizar, mas sei antes de tudo o que quero. E quero. Preciso verbalizar?

Chaie

domingo, 3 de janeiro de 2010


Não estou conseguindo escrever um texto, as ideias estão soltas feito retalhos, como se a lógica de tudo fosse justamente a ausência de, e o que guiasse o que está posto, simplesmente é porque é. E pronto
Fico me perguntando por que a história se repete, ou segue seu contínuo fluxo. Como ”a água descendo a montanha”, lembra? Mesmo com os obstáculos mais abruptos. Sinceramente não sei se a mesma regra se aplica. Não sei se sou tão fluida.
...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

"Sempre chega a hora em que descobrimos que sabíamos muito mais do que antes julgávamos". José Saramago


Não ando com vontade de escrever, embora a teima em registrar um quê, pelo menos, do que se passa cotidianamente me pareça ser imperativo.
Quem me lê com frequência - e sei que há (como disse Saramago em uma de suas entrevistas, "se há, é porque existe"), deve criar juizo, relembrar ou mesmo pensar sobre o que escrevo. Ou em mim.
A escrita nos revela, por demais. Por isso os temas que escolho - seguindo ou não a minha lógica de vivência e devaneio - é regida mais pelo momento em que, sentada em frente ao computador, deixo fluir sem muito controle o fluxo de imagens. E são belas, algumas. Nada descarto, embora sinta vontade às vezes. Sim, camuflo também. Por acaso vou dizer abertamente sobre um affair? E sobre tintos? Aquela notícia boa para o ano que vem? Não. Não é do meu caráter tirar todos os véus. Há coisas que nem camufladas sob as palavras. "Estranho mistério" tem que ser o escritor, não dar a elas, as palavras, tanto poder - ou mais do que já possuem.

E falta dizer...
Ouvi da boca de uma pessoa querida que há certas coisas que por força não do tempo, mas nossa, devem ser esquecidas; matar, se preciso. E é. Por mais que doa a constatação - e dói -, pois a a gente alimenta a ilusão de que há, mas no fundo e na superfície nunca existiram.

Chaie

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Quais os segredos que se escondem por detrás da aragem? Há cores que se multiplicam sem número de vez e chamado. Por si só, repousam, múltiplas, espargindo sua luz sob o que é muito e além de que quer. Saiba. Saiba o dia, a hora e as pérolas: cada um em seu estado – líquido? – evadir-se feito nuvem quando da chuva. E restar esse sentido de quase nada que mesmo quase, chega a ser um algo que conforta.
...

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

"Aprendi com as primaveras a me deixar cortar para voltar inteira.” Cecília Meireles


Estou com vontade de dançar. E danço, nua pela casa. O verão já é um dia anunciado. Senti-o ontem à noite, assim que saía do colégio. O ar morno, a noite cálida, uma preguiça que se anuncia do desprendimento lento que precipita o fim de ano. É algo bom. Gosto dessa sensação de “despertar” para o novo. Sabe quando dá um estalo em março e você sente que o outono está aí? O inverno nas lãs e sono, o dia dormindo cedo. Gosto de ciclos e sentir a vida se renovando, nada de retilíneo, cartesiano. No corpo, impresso os sinais da estação e – por extensão – a alma vibrando as energias do momento regido pela força do tempo.
Sim, sim, eu sei... estou poética. E daí? Está vendo este sorriso aqui? Não quero experimentar euforia porque desequilíbrio, muito menos melancolia crônica. Buscando o equilíbrio. Acho que pedalar tem me ajudado...
Já disse que tenho andado de bicicleta todos os dias, religiosamente uma hora, no mínimo? Hoje peguei um crepúsculo lindo depois de uma tarde de chuva e trovoada. Beleza me alimenta.
:)
que mais? é isso. :)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009


O que sentem os homens do mar?

No que pensam sentindo-se navegado com tanta água e céu?
O mar, desde menina, é meu amigo. Não tive a surpresa de conhecê-lo com olhos já feitos. Cresci fazendo-me de maresias, areia e conchas todos os verões. Embora o pasmo incial do primeiro encontro não seja lembrança nítiva, cravou um sentido de reverência por força do tempo, e com ele vivências sob suas márgens em mim.
Sabia-me, até ontem, encantada por conchas - poucas formas e significados me encantam tanto...; depois de ontem, por barcos.

Já havia lido, além dos poemas que tanto amo, que Neruda tinha verdadeira paixão por embarcações, embora tivesse medo de navegar. Suas casas repletas, cheias de tesouros marinhos - conchas, peixes, lemes, sereias -, a aquitetura lembrando barcos...

Quando descubro algo que gosto me dá uma sensação boa, porque nova. E aquela lembrança perdida de que a gente só ama o que conhece. Sei muito pouco, meu amor é restrito. Há muito dele. O que tudo irei amar? :)
Tão boa essa certeza...

* A foto foi tirada na sala em que Neruda escrevia. Créditos para o Rubson, pessoa querida que em fevereiro esteve no Chile e trouxe a foto especialmente para mim. Thanks, friend!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Sobre um dia

Faz uma tarde quente, dessas de sol, calor e um certa dose de água, muita água.
Meus vestidos já saíram do guarda-roupa; as flores de cetim, os colares - inclusive o de lua - já dão o ar da graça nestes dias fagueiros. E há lua, foi Beltane, minha ida ao centro espírita e um estar em mim que me traz serenidade, mas não necessária: é um bem em mim, como o mal, sem lógica de estado, porque simplismente é e está.
Estou lendo. Livros? Também. Mais,talvez, o meu entorno. Um olhar que muda, eu sinto. Estou caminhando para uma lucidez... não sei explicar!
Disse Santo Agostinho sobre o tempo, o mesmo vale para o que sinto agora "se me pergunta o que ele é, eu sei; mas se me perguntam e eu quero explicar, não sei mais".
:)
Chaie

domingo, 25 de outubro de 2009

Eu só sei...



Tão bom chegar assim, no final de uma noite de domingo - mesmo que o fim de semana não tenha sido dos melhores... - ir para a cama com o eco de palavras amigas de grandes amigos meus: Ademar, Sarita e Sara.
Essa angústia que está comigo, sei, faz parte de um longo processo de busca, de crescimento. Crescer dói, não é?
Hoje ficou clara, uma certeza: no fim, sou eu contra eu mesma.

é...

sábado, 17 de outubro de 2009

A roupa do homem invisível

Como na história do homem invisível, lembra? Mas do meu gôsto. A paixão com que me lanço não está no que se diz ser homem, arremedo, não sei: é o gosto por vesti-lo.

Bonecos de farinha também existem, mas desses já sei.
Antes de ser desfeito pelo vento, eu já sei. :)


Chaie Berndt
A Divina Comédia - variações sobre o mesmo tema



"A meio do caminho desta vida
achei-me a errar por uma selva escura,
longe da boa via, então perdida."
Dante Alighieri

:)

Estou pensando como dizer o que - olhinhos de gato.

Chaie Berndt

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Estou ouvindo Carlos Gardel, Roberto Goyeneche, Pizzolla. Gosto de tango, me deixa visitar uma Buenos Aires que ainda não conheço, mas que em breve, sei, será querida
É... Buenos Aires é uma ótima ideia :)


El día que me quieras
la rosa que engalana,
se vestirá de fiesta
con su mejor color.
Y al viento las campanas
dirán que ya eres mía,
y locas las fontanas
se contarán su amor.


Na voz de Gardel. Lindo! :)

Chaie Berndt

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Olhos azuis, pelos café-com-leite. Todo peludinho, persa.
Eu tenho outro gato :)
Bem-vindo ao lar, Astoufo!!!

:) Chaie Berndt

domingo, 4 de outubro de 2009


O que importa mesmo? :)

Gosto de cinema. Em casa mesmo. Com direito a pijama, xícaras de chá ou café e muitos travesseiros na cama.

Tenho visto, pela segunda, terceira, até quarta vez algumas películas que me marcaram. Sabe aqueles roteiros bem feitos, a fotografia com aqueles planos certos na hora certa, a trilha sonora que você cantarola? Com frequência é o cinema europeu que me toca, principalmente o italiano (preciso dizer que sou apaixonada pelo Tornatore?). Mas às vezes fujo à minha regra particular.

Este final de semana assisti "Thelma e Louise", "Gilbert Grape", "O Leitor",
"Brilho eterno de uma mente sem lembranças" e "As férias das minha vida".
Cada um com suas particularidades. Gosto de filmes que mostrem coisas que me surpreendam, mesmo que sejam clichê. Vale o "como", não exatamente o "o que".

Thelma e Louise é um filme da década de 80. As protagonistas têm química, os planos são ótimos. A paisagem árida. E que paisagem - incluindo a do Brad Pit seminu. Acho que este é o primeiro filme em que vejo "shit" sendo traduzido na legenda como "merda", e não "droga" e "Oh my God" como "caramba". Ri sozinha ouvindo os estragemas do tipo "segura homem" de Thelma e Louise ( hello, Cris! rss). Ai, isso me irrita e cansa. Se é, é e pronto. Juro que assistindo ao filme senti uma vontade indomável hahah de sair sem rumo. Já me imaginou sair sem rumo, Formiguinha Torrão de Açúcar?Mas para onde?

Gilbert vivia numa casa que é o avesso da minha. Sua fuga parece um bem inevitável. Como diz Lygia Fagundes Telles em "A disciplina do amor": ah! vontade de fugir sem olhar para trás, desatino e alegria de um cavalo selvagem, os fogosos cavalos de crina e narinas frementes, escapando do laço do caçador. Fiz uma análise desse conto/crônica na minha especialização em Literatura Brasileira: Produção Contemporânea. Uma época de decisões. E certeza de que a fuga, em certos casos, não é a melhor saída. Deveria ter feito isso. Nunca fui muito boa com rupturas, mesmo as necessárias. Do momento, atos que soterravam lembranças. Engraçado como a gente quer esconder coisas da gente, inventar brincadeiras de esquecimento, ativa saudades, recolhe mágoas e entorna-as no chão. (Dia desses posto a análise, você vai ver.)

Já pensou em apagar determinadas lembranças? :) Assista "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". Devo ter assistido umas 4 vezes, em cada uma vejo algo que não vi na anterior. O personagem se agarrado às lembranças, não querendo apagá-las. Somos o que vivemos, sim somos isso: a soma de todas as experiências, sejam elas positivas ou não, estejam elas guardadas ou, por força interior, fadadas ao esquecimento de propósito. Não quero nenhuma lembrança arrancada de mim. Todas as vivências me fizeram e continuam fazendo enquanto saudade, recordação.

Saldo do final de semana: "você tem o que escolhe" segundo Louise, "não importa como começa, importa é como termina", segundo a personagem de Gérard Depardieu notro filme desse final de semana oblíquo.
Há coisas que o tempo não apaga, há saudades hoje divididas e uma certeza: algo começou num tempo longe, não terminou. Importa como termina, ou melhor: continua, dizem. Comigo está valendo o "como" lidar. Há espaço para tudo, desde me permitir, até deixar de vez o passado planger baixinho. Psiiiiiiiiiii
:)


Chaie :)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Sem reservas

II - Sobre uma percepção

Foi uma semana tranquila. Não em que nessas de arrancar sob que força, entornando no chão o que no meu tempo é angus; é dessas em que no peito parece ter ancorado uma serenidade desejada porque necessária.
Eu que vivia ainda há pouco sob o signo do imprevisto, segurando no vento esses lápsos de luz que não passam de sombra. Uma avenca partindo.
Ando me sentido e estado só. Por vontade, por uma clareza. Deixar, como escrevi "deixar o fuso girar sua roda". Vontade de ância me atropela, atropelo, rolo.

Estou redonda e macia,
como uma maçã. Sem pecado.

Chaie Berndt

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Entreguee a encomenda.

I - Sobre uma percepção
"Todo amor é provisório. É na sua transitoriedade que mora o perigo: viver de fatos sob a lua e pendurar esperanças nas estrelas nos fazem mais que taciturnos, fazem-nos amantes de uma existência que anseia a plenitude, sempre e em todo lugar, mais intensa. Porque se de transitoriedade estamos, de plenitude somos."

<em>O que faz uma garrafa de Cabernet, um final de semana lúcido de chuvas, vento e granizo, um livro do Quintana e a solidão por constante desejada, porque necessária?

Chaie Berndt :)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Gênesis revisitado




Lilith já sabia. Socializou.
Eva sorveu da maçã
E:
- Anda, Adão.
Reza a lenda que ele mordeu.
Previsível.

Chaie Berndt

Falta dizer nada rsss

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Pois então, deixa mostrar uma crônica que publiquei no site do UNIBAVe, Instituição em que trabalho há um bom tempo...

http://www.unibave.net/?op=conteudo_art&a=5272

Fotografia 3X4
Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Cartola, Caymmi, Candeia, Tom Jobim, Belchior – só para citar alguns. Provavelmente, o leitor lembre-se de “Águas de Março”, ou ainda um soneto do Poetinha; por minha vez, apaixonada pela obra do Chico, não poderia me furtar, deixo escapar um “Onde andará Nicanor?/ Tinha nó de marinheiro/ Quando amarrava um amor/ Mas há recantos guardados/ Nos sete mares rasgados/ Sete pecados tão bons”. E se do seu lado alguém cantarolasse “ Eu sou apenas um rapaz latino-americano/ sem dinheiro no bolso...” ?

A propósito dos versos que Belchior, durante uma semana, o público de certa(?) emissora ficou apreensivo para saber o paradeiro do cantor que, segundo fontes, havia “sumido” do mapa, deixado a ver navios a ex-esposa sem receber a pensão alimentícia dos filhos, dois carros abandonados, entre outras pendências. Comunidades no Orkut foram criadas, no Twitter não se falava noutra coisa. Aí me faço uma pergunta e estendo-a: quem é Belchior?

Virou clichê dizer que a mídia manipula, exerce um poder de persuasão que faz com que o receptor – eu, você – seja mero títere em mãos cujas intencionalidades vão muito além de entreter e bem aquém de formar senso crítico, quem dera poético. Que identidade temos nós diante de tanto descaso e alienação?

Abrir parêntese Ouviu falar, por acaso, que na última terça-feira a Alerj – Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou o projeto de lei que transforma o funk em movimento cultural? Não? Gostei da iniciativa, isso se vista por um viés: que música farão parte do movimento, aquelas nascidas na favela, que falam sobre a realidade dura e sofrida do povo que lá habita? Ou as de conotação explicitamente sexual? Quem promoverá a cultura, Tati Quebra Barraco? fechar parêntese.
Carecemos de música de qualidade, de literatura que mereça ser chamada de literatura, de uma vida que tenha sentido, orientada por princípios e valores. E existe tudo isso? Sim, existe. Mas cadê? Pense, caro leitor. Sensibilidade e gosto a gente também educa.

Queremos Belchior de volta sim! Não na revista eletrônica de domingo para responder à perguntas embaraçosas, não: queremos ser tocados pela beleza, por composições que tragam consigo um sentido diverso daquele que planta em nós o desencanto.

Em tempos em que velório de pop star é circus, autobiografias prematuras de celebridades instantâneas são vendidas aos potes, ou ainda que lei é aprovada transformando o funk em movimento cultural, custa acreditar numa luz no fim do túnel.

E falta dizer...
Já ouviu “Fotografia 3x4” do Belchior? Ouça, é linda. Os versos que me tocam: “ A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia/ E pela dor eu descobri o poder da alegria/ E a certeza de que tenho coisas novas, coisas novas pra dizer”.

E ainda...
Segundo alguns defensores do movimento cultural, tem o funk do bem e o do mal. Resta agora separar o joio do trigo. Será que “Cadê Xoxó?” faz parte do segundo grupo? O paradeiro de xoxó, caro leitor, esse sim é melhor deixar perdido.

Chaiene Berndt Orben –
Professora de Língua Portuguesa e Literatura da Escola Barriga Verde.

domingo, 6 de setembro de 2009

Se há...

Meus hiatos são frequentes, em alguns calo; noutros, escrevo à revelia de. Olho pra os lados.

Estou na minha biblioteca. Digo o que ela já presenciou, conto das palavras que pendem, das aranhas e suas teias? Aliás, meu Pinóquio até perdeu o nariz no meio de tanto caos. Bem feito pra ele! Chegou o tempo da verdade, meu caro. Da verdade.

Hoje terminei de assistir a um filme: Mediterraneo. Produção italiana. já assistiu? Gosto do cinema italiano, a fotografia, os planos, um senso de realidade que anda de mãos dadas com os fantástico. E a trilha sonora?:)

O filme Mediterraneo é "dedicato a tutti quelli che stanno scappando". E é, tanto que o filme começa com um aforismo de Henry Laborit: "In tempi come questi la fuga é l"unico mezzo per mantenerssi vivi e continuare a sognare". O filme não é sobre guerra, mesmo sendo um pano de fundo interessante. Não: é sobre a capacidade de sonhar, de viver o que é permitido viver, mesmo quando as coisas não vão bem.

Tenho que dizer...

Hoje encontrei quatro ex-alunos meus. Um deles já faz parte da família, ele e minha afilhada namoram. Olhá-los, chamando-me de profe e Chaie com carinho, me olhando com afeto e querendo dizer algo que ficou numa zona de silêncio, mas que eu escutei e disse fundo, trouxe-me aquela Chaiene-professora que anda tímida.

a ainda...
Sábado fui ao Chá de Bebê da Jadina, minha prima e amiga do coração. Éramos as três mosqueteiras: eu, Jadina e Gisele. Três primas-amigas que, mesmo distantes, guardamos uma amizade preciosa. Ver a Jadina grávida, toda feliz, me trouxe com toda força a vontade de ser mãe - já disse que quero muito ser mãe?:) -. Nos olhos dela, o brilho de só quem é feliz de verdade tem. Nela, multiplicado quantas vezes não sei pelo fato de ser mãe. Lindo! Seja bem-vindo, Pedro Otávio!

:)

Chaie Berndt

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Uma, duas três - quatro malas
pesadas
a travessia começa com o fecho que prende
-Abre!
voam sonhos defeitos
agonia pelo que poderia ter sido - ..., e não foi
alguma mágoa de menina mimada
traças, até
e algumas letras caiadas - por que as pintei?
um espelho quebrado
na foto de um dia colorido que virou em sépia
(é que esteve sol lindo e brisa)

se nublado e tempestade,
urge mudança
não esquecer de abrir de vez as malas
levar ao vento o que farpa
peso
andrajos


-Como pode querer alguém ir longe com tanta coisa perdida nas malas?
o novo aceita o renovado
o puro
e certeza que bem-vindo sejas:
humilde de coração.



O poema, aquele, não veio ainda. Mas, confesso: falar sobre percepção me está fazendo ver umas coiss em mim. Virei poesia ambulante?

.... vontade de dizer, ai vontade... rsss

Chaie

sexta-feira, 28 de agosto de 2009


Viste?
A noite é tão linda que impossível não ser notívaga.
Pedido à Grande Mãe? Saber-se detentora de poucas certezas... Uma que arde. O que devo fazer?
Dessa dúvida não careço. Sei: esperar o tempo girar seu fuso e a roca desenovelar na forma o que antes não é ância, é movimento de rota.

...

E a minha médica homeopata: " Me conta o que tu anda sentindo nas últimas semanas".
(...)
"Não te culpa, a gente não manda no coração. Ouve ele e espera. O tempo continua sendo o melhor remédio".
E sorrio, pensando:
- E digo o que pensei?!-

Falta dizer...
Procurei noite adentro, sentada na rede, uma estrela cadente. Faz tempo que não vejo uma.
Em noites de ausência, ouço-as mais que de costume. O que diziam? Segredo. O que dizem - eles, os outros... de mim? "Ora, ouves estrelas?". E eu? "Amai para entendê-las, amai... mesmo as cadentes".
:)
Chaiene Berndt Orben

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O que a primavera faz com as cerejas?

Estou com sede de sol. Tirar meus vestidos das caixas, as flores de seda para o cabelo, as sandália de salto e os jeans poídos. Não precisa ser ao mesmo tempo agora: há de ser conforme o frio vai cedendo espaço ao cheiro de mato, o clarear do dia mais cedo, o chegar da noite mais tarde. Devagar. A ideia da vida se renoveando depois da inverno me tranquiliza.
O inverno tem suas peculiaridades. Tão bom sentir as blusas pesadas, as noites frias em que você vai pra cama mais cedo por gosto de levar uma garrafa térmica com chá docinho, alguns livros de poesia esparsa, ou um bom filme, o calor das cobertas. Até a solidão fica mais razoábel - às vezes.
Algumas coisas marcadas por fim e princípio fazem com que a gente se renove. Várias teorias: 1. eu como um reflexo do meio; 2. o meio me trasnformando; 3. somos uma coisa só, o meio e eu.
Prefiro a terceira. Com a primavera prenunciada nas manhãs que acordam mais cedo, nas noites de frias a frescas, creio na ideia de todo. Um contido no outro. Como numa teia, né Capra?
Fico pensando nos eventos do meu agora, onde estendem seus fios? Bem sei, a gente sempre sabe.
Renovar, renovar-se, compactuar com a mudança, a lógica do universo?
Veremos!
(não está acabado, calma! :))

Chaie :)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

"Se julgamos as pessoas, não temos tempo para amá-las". Mark Twain

O tempo, o acaso. O momento rege as circunstâncias e não há, por vezes, solução mais sensata - embora angustiante: aceitar a vida sob sua ótica, que é a da mudança.
Há tempos em que a recordação, a saudade se configuram tão certas quanto o que trivialmente entendemos como certas no mundo concreto: um copo d’água, a meia nos pés, a buzina no trânsito. Chega a ser palpável, é sensação física. Mas algo que não há como medir. Não é como o copo d’água, a meia nos pés ou o som de alerta no trânsito: não se pode dizer que é muito, pouco, frio, de lã, alto ou baixo. Simplesmente é.
Um turbilhão de cheiros – o da noite, do mar -, de música e risos e um sentido de urgência que me motiva a crer além de convenções.
Não tem, nessas horas, como não lembrar de Neruda. Foi à noite, segurando o livro, que recitava os versos cujo significado plangem, plangem, plangem...
“Como uma flor a seu perfume, estou atado a tua lembrança imprecisa: se me tocas, causarás um dano irremediável”.
A vida. Lembro do I Ching quando de ti... Assim como a água descendo a montanha, diante de nada recua, diante de nada insiste; mergulha, desvia, contorna, adapta-se sem resistência e chega, pois, infalivelmente ao que lhe corresponde.

E falta dizer...
Ademar, amigo e mestre, disse certa vez que quando a gente ama não é imperativo estar junto; o importante quando a gente ama é deixar o outro seguir seu caminho. E segue. E a gente deixa...

domingo, 5 de julho de 2009


Someone like you

Já assistiu? Teoria da vaca nova. Explico: a vaca velha, depois de amada (na falácia masculina, ou do boi, como preferir), é substituída pela vaca nova. Uma analogia: gado velho em pasto novo. Entendeu?
Pois então, estava eu assistindo à prestação Someone like you, baseado em obra homônima de Sara Dressen, desde segunda passada. Segue aquelas receitinhas necessárias à nutrição de almas femininas famintas por happy ends depois de tantas incursões/investidas desastrosas no pantanoso campo dos relacionamentos amorosos.

E pensei eu, principalmente depois deste final de semana – não, não vou contar Le fabuleux destin d'Chaiene Berndt ... posso dizer, apenas, que o tinto seco estava molto buono...
Pensei em mim como a mulher e a menina que co-habitam tão alheias por vezes às revoltas que sua condição de fêmea lhe traz. Vive-se contemporaneamente uma dissipação de padrões, a tomada de outros, a adoção de ambos (a dissimulação sempre existiu e é necessária, infelizmente) e a incerteza do que fazer ao certo.

A dita revolução sexual trouxe uma série de vantagens às mulheres, principalmente no que tange a uma maior liberdade de trânsito em posições até então ditas masculinas. Por outro lado, penso que masculinizou-nos, sob o clichê “podemos tudo que os homens podem”. Alto lá. Está embutida ai uma cosita: ao igualarmo-nos aos homens, esquecemos de nós mesmas. Do que queremos. Quem somos. Entramos num processo ainda maior de alheamento desde que fomos educadas par não sabermos que somos diferentes, e por isso dotadas de uma superioridade que não pede igualdade, mas sim lugar. Voz. Vez. Basta volver os olhos para as atrocidades às quais fomos submetidas para compreender o motivo de tanta coação. Não se fere tanto, massacra, mata e coíbe quem é fraco, muito pelo contrário: somente o que, por ser investido de poder, não força, ameaça.
Daí advém tanto complexo de cinderela, tanta vontade reprimida e desviada pra rumos alheios. As fogueiras continuam tão acesas quanto antes. Não sei ainda estabelecer um comparativo. Qual dói mais mesmo? [...]
...


E falta dizer, falta dizer MESMO

Não adianta espernear, gritar aos quatro ventos CHEGA, estou cansada! E ver as mãos arranhadas, o corpo. Amar é muito bom, e penso que seja a coisa que mais se leva folha e clorofila vida a fora. Vivo. Latente.
Como diz Rose em The mirror has two faces, ao tentar explicar de forma simples, sem especulações científicas, por que amamos. E ela: “...beause it fells fucking great”.

Really? Let’s say and make that guys!!! ;)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

(a)traímos o que mais queremos
ou a vida não passa de um um(d)e(se)quilíbrio caótico
de um (tour)bilhão (des)necessário
em que pensar e despensar
ser ou de vir a
levam... a(h)
nada
...

Chaie Berndt

domingo, 14 de junho de 2009

Sob o céu de Paris



Já disse alguma vez que Paris me atrai? Tem cheiro de Christobal (lembra?), gosto de café em dia frio, os museus - ah, Louvre, ah Museu Picasso... - as óperas (La traviata, já pensou???), o andar compassado pelas ruas, nos cabelos ao vento, la vie en rose na voz singular de Piaf ( de onde vem aquela voz, sai dela gutural de um compartimentos secreto sob engenho de um tempo movido pelo céu de Paris.) Não vi ainda o céu da Cidade Luz, mas deve ser lindo! Tudo é lindo quando se ama - a gente só ama o que conhece, lembra?

E ainda...

O personagem do filme perguntando pra mocinha: " Mas o que você quer? Não é o que sua mãe, seu pai e seu noive querem. É o que você quer! O QUE VOCÊ QUER??"
:)

Chaie Berndt

sábado, 2 de maio de 2009


V - Sobre Isa


(...)
Da Colina Sul, pode-se avistar todo o vale, as casas que margeiam o rio, todas elas com seus jardins e quintais. Jardins e quintais são importantes, afinal em que outro lugar a gente pode ver os seres encantados tão de perto?
Isa gosta do outono, tem goiabas. E goiabada. Dona Mafalda, sua mãe, faz a melhor goiabada do mundo! Tem cravo, tem canela e o segredo das fadas como tempero. O açúcar que vem do engenho de seu Nicolau adoça o doce. Formiga Torrão de Açúcar fica só espiando dona Mafalda para louquinha lambuzar as patinhas na goiabada, que fica na colher de pau enquanto Isa lambe a panela.
- Formiga Torrão de Açúcar, por que o açúcar do engenho é cor de terra?
- Porque ele tem alma
- Então o açúcar da quitanda do seu Fabrício é desalmado?
- Não, Cabecinha de vento.
- Deve ser por isso que ele mela quando mamãe não usa... a mamãe não usa o que não tem alma. Ai ele fica lá, quietinho no escuro do armário e começa a ficar cor de tempestade. Acho que o açúcar cor de neve quer ser cor de terra de novo.
- Pois é... mas nunca vai voltar a ser como o açúcar do seu Nicolau...
Isa deixa de lado a panela e olha no fundo dos olhos de Torrão de Açúcar:
- Você é Torrão de Açúcar com alma ou sem alma?
Silêncio.
- Não sei, Cabecinha de Vento... mas acho que desalmado eu não sou não! Olha só, meu coração bate pum pum pum! E olha as minhas patinhas! Vê como elas são bonitas! Alguém sem alma será que conseguiria escutar as estrelas?
- É verdade...
E sorriem.



Quanto Isa Cabecinha de Vento nasceu - faz quantos fins de verão? - era ela todo reflexo de um eu-menina afoita cultivando uma plantinha que até então desconhecia.
... e foram longas as noites de uma ausência cuja lembrança meu peito acalentava o momento do retorno que não exitiu.
Meninas têm medo. Mulheres têm pressa.

E falta dizer....

Eu era plena, toda uma fruta sumarenta. Nem havia me dado conta: fui colhida.
Como é bom, hoje, ter certeza disso....

segunda-feira, 27 de abril de 2009



IV - Das constatações

- Meu Pinóquio da estante pedeu o nariz.
- cadê meu gato de porcela?
- Baudelaire também fala na parede (quando transcrevi isso?)
- todas as cartas de amor são ridículas/ Ridículo é quem nunca escreveu carta de amor (é assim? Fernando Pessoa)
- "O menino do dedo verde" - as sementes de ciruela já despontaram em broto...
- mamma mia lara lara raaa la la
- unhas vermelhas
- cadê a faca e o queijo? Já tenho fome, oras! Aliás, só preciso dO queijo mesmo...

hum...

Chaie Berndt

domingo, 26 de abril de 2009






III - Da saudade

Estou aqui, na biblioteca de casa. Lugar de coisas queridas. Olho com calma essas paredes, os livros, as minhas regras de (des)organização, a garrafa de vinho vazia - in vino veritas -, restos de pesamentos vãos da noite anterior, aparas de ideias olhando atônicas. E saudades de uma estação que sempre se repete aqui dentro, seja que tempo faça.

Com a monografia sobre os Celtas aprendi muitas coisas. Como em tudo, lanço-me a sentir o âmago, as faces possíveis que o momento rege. O tempo - acreditavam os Celtas - não é linear: é espiral. "O tempo, uma sequência de fatos, não caminha de modo linear, afastando-se eternamente de um ponto inicial. Ele na verdade avança como um círculo. Melhor ainda, é uma espiral. Se imaginarmos o tempo como uma espiral helicoidal, como uma mola, na qual os diferentes segmentos circulares são todos de diâmetro idêntico, temos uma linha infinta, como na noção de tempo linear, mas que gira em torno de si mesma, aproximando eventos futuros do presente e do passado."

Meu dedo desenha na curso de vento o tempo. O que a gente ama a alma não esquece, mesmo longe. Aliás, lugar é o que pouco importa nessas horas... "Onde está vosso tesouro, ai estará também o vosso coração"...
O momento rege as circuntância. De poucas coisas tenho certeza. De ti tenho plena.

:)

Chaie Berndt

sexta-feira, 24 de abril de 2009



O branco suave de uvas Goethe. Faz frio, chuva. E dai? Eu comigo.

"Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado..."

Raul também deve ter lido A erva do diabo do Castañeda. Ouvindo Meu amigo Pedro - Há tantos caminhos, tantas portas, mas somente um tempo coração -, vi a referência explícita.
O brujo Dom Juan disse: "Para mim só existe percorrer os caminhos que tenham coração, qualquer caminho que tenha coração. Ali viajo, e o único desafio que vale é atravessá-lo em toda a sua extensão. E por ali viajo olhando, olhando, arquejante".
E tenho dito.

Chaie Berndt

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Longe deste: noutro. Aquele em que as palavras correm soltas sem os freios aqui necessários.
Eu comigo.
Chaie Berndt

sábado, 11 de abril de 2009


"Quando se está só, não se sente fome nem sede: um raio de luz basta."
Adélia Prado


Estou cansada. Não me doem as pernas, nem os braços. Os ombros carregam um mundo de incertezas, angústias e decepções que se multiplicam...
Eu tinha duas escolhas, duas percepções distintas que guiassem meu caminho. Adotaria um forma fútil de levar a diante minha vida, ou voltaria a um cultivo de mim. Pela senda da segunda e avante. Mas guiar-se por caminhos não outros que essa realidade avessa pede o tempo todo é como lançar-se contra a maré. Não sei qual das duas - falsos ideais ou que acredito - mais afoga.
...
Por que a gente se sente assim às vezes? Como se um buraco fosse cavado lentamente no peito, e a única certeza - fora a dor e solidão - é a de constatar que não exite um raio de luz lá no fundo?

E precisa dizer? Quero voltar pra casa...

Chaie Berndt